Naomi Osaka chegou à segunda semana de Wimbledon pela primeira vez na carreira neste domingo, derrotando a número 1 do mundo, Aryna Sabalenka, por 6-2 e 7-6(2) em uma atuação impecável que sacudiu o All England Club. Aos 28 anos, a tetracampeã de Grand Slam não apenas venceu - ela dominou, servindo com precisão cirúrgica e se movendo pela grama com uma desenvoltura que, há pouco tempo, ninguém imaginaria possível. A vitória sobre Sabalenka, que não havia perdido um tiebreak em majors nas últimas 21 disputas, foi o símbolo mais eloquente de uma reinvenção silenciosa e consistente.
O caminho até essa quartas de final foi percorrido sem perder um único set. Nas oitavas, Osaka havia liquidado a australiana Daria Kasatkina por 6-1 e 6-3 em apenas 65 minutos, em um nível que deixou a própria adversária desconcertada. "Talvez eu não esperasse o que ela produziu hoje", admitiu Kasatkina em coletiva. "Mas eu esperava uma partida muito difícil, porque com o jeito que ela joga, a grama tem que lhe favorecer." É um reconhecimento que dialoga com outras narrativas do esporte mundial: assim como a Croácia lidera o ranking na Copa valorizando o desenvolvimento técnico e a adaptação tática ao longo do tempo, Osaka encontrou no processo de reconstrução física e mental a chave para superfícies que antes pareciam intransponíveis.
A reinvenção que começou nos bastidores
A reviravolta de Osaka não surgiu do nada. Em meados de 2022, ela entrou em pausa na carreira para ter sua filha Shai. Quando retornou ao circuito em janeiro de 2024, o tênis havia mudado: as melhores jogadoras do mundo passaram a golpear com ainda mais velocidade e efeito, explorando os cantos da quadra com uma combinação de defesa e contra-ataque que exige mobilidade de elite. Osaka e sua equipe técnica sabiam que ela precisava se adaptar ou ficar para trás.
Em dezembro de 2023, uma ex-bailarina chamada Simone Elliott começou a comparecer aos treinos da japonesa. À medida que encerrava a carreira na dança, Elliott desenvolveu uma especialidade em ensinar atletas a manter o equilíbrio em deslocamentos de alta velocidade em posições extremas. Na época, Osaka mal conseguia executar um backhand em postura aberta - o golpe em que o corpo fica voltado para a rede, fundamental no tênis moderno. O trabalho com Elliott foi lento, mas transformador. "O momento exato foi quando perdi em Washington no ano passado", disse Osaka em coletiva na sexta-feira, referindo-se à derrota para a britânica Emma Raducanu no DC Open. "Eu perdi aquela partida, mas senti que conseguia me mover. Senti um clique significativo."
Da grama à passarela: moda como extensão da identidade
A ascensão em quadra vem acompanhada de uma outra dimensão que distingue Osaka de qualquer outra atleta da atualidade: a moda como linguagem de autoexpressão. Em cada um dos três majors desta temporada, ela entrou na quadra como nenhuma tenista havia feito antes. Em Wimbledon, usou um conjunto branco inspirado nas vestimentas cerimoniais japonesas - um vestido estilo kimono bordado com flores de cerejeira e garças, criado em parceria com a designer Hana Yagi. No Australian Open, desfilou com uma criação esvoaçante inspirada em águas-vivas, do estilista Robert Wun. No Roland Garros, uma série de saias em cascata e um vestido dourado e cintilante evocavam a silhueta da Torre Eiffel. A Nike produz os modelos para uso em quadra; Osaka lidera o processo criativo ao lado de uma equipe própria.
"Eu preferiria falar sobre minhas roupas", disse ela com franqueza incomum para uma atleta profissional. "De certa forma, me sinto muito mais preparada para falar sobre minhas roupas do que sobre o meu tênis. É estranho, porque jogo tênis há mais de 20 anos. Há dias em que não me sinto uma especialista nisso." Para Osaka, uma introvertida confessa que na adolescência tinha dificuldade de manter contato visual com seus treinadores, as roupas funcionam como um escudo e também como uma ponte. "Conseguir comunicar meu estilo, conseguir comunicar minha marca de tênis também - porque sinto que o meu tênis é um pouco mais alto do que eu", explicou.
O que está em jogo nas quartas de final
Antes da temporada de grama, o técnico Tomasz Wiktorowski - que trabalhou com Iga Świątek - incentivou Osaka a repensar sua relação com a superfície. Durante anos, ela havia essencialmente ignorado as particularidades da grama, tentando jogar como se estivesse numa quadra dura. Agora, diz estar começando a entender o jogo na grama de verdade: a bola mais baixa, o ritmo diferente, as oportunidades para avançar à rede. "É mais fluido", disse ela. E ela também está mais fluída.
A trajetória recente é consistente: depois da derrota para Raducanu em Washington, chegou à final do Aberto do Canadá e às semifinais do US Open, eliminando Coco Gauff no caminho. Nesta temporada, Sabalenka havia superado Osaka em Indian Wells, em Madri e em Roland Garros. Neste domingo, a dinâmica mudou. Com uma primeira semana de Wimbledon intacta e a confiança mais alta do que em anos, Osaka vai às quartas de final carregando mais do que bons resultados: carrega a narrativa de uma atleta que se reconstruiu de dentro para fora, encontrando na expressão criativa e no trabalho corporal as ferramentas para voltar ao mais alto nível - e desta vez, na grama.